O que a internet expôs sobre cobertura espiritual, abuso de autoridade e as marcas de uma igreja que deixou de ser igreja
A internet fez com o movimento evangélico brasileiro o que nenhum concílio tinha feito: expôs em praça pública aquilo que antes ficava abafado dentro das quatro paredes do templo. E o que ela mostrou pede uma distinção honesta antes de qualquer acusação.
De um lado, ela desnudou uma incompetência — e uso a palavra no sentido técnico, sem xingamento. Muitos obreiros e obreiras fizeram o máximo com o pouco que tinham na mão e com o pouco que aprenderam. Deus alcançou vidas por meio dessas pessoas, e sou grato por isso. Só que a mesma internet que revelou o esforço revelou também o despreparo teológico de boa parte da liderança. Hoje, com curso barato e material gratuito sobrando, ficar parado deixou de ter desculpa.
De outro lado, ela desnudou maldade. Pastores que oprimem as ovelhas e montam um ambiente de dominação vestido de cuidado, de paternidade espiritual, de cobertura. É desse segundo grupo que eu quero tratar, porque muita gente só percebeu que estava numa igreja adoecida quando a tela do celular começou a devolver, em vídeo, o que ela vivia como normal.
O pastor que virou guru
Um pastor não existe para ditar o que você compra, com quem anda ou como gasta o seu domingo. Quando alguém quer saber dos seus passos nos mínimos detalhes, exige relatório de cada decisão e transforma o gabinete numa central de permissões, aquilo deixou de ser pastoreio. Virou guru. Virou dominação espiritual disfarçada de zelo.
Existe uma versão saudável da linguagem de "filho na fé", e conheço gente séria que a usa sem sufocar ninguém. Mas o modelo que se espalhou por aí é outro: uma cobertura que prende, em que você não pode fazer nada sem consultar o líder, sob pena de "perder a proteção espiritual". Isso não tem nada a ver com Paulo chamando Timóteo de "meu filhinho". Ali havia afeto e responsabilidade, jamais controle. E convém lembrar: ninguém nesse rolê é o apóstolo Paulo.
O ponto mais grave dessa mentalidade circula solto na internet numa frase que resume a inversão inteira: "quando me torno servo do pastor, Deus se torna meu servo." Vi isso pregado com música e aplauso. É o oposto do que a Bíblia chama de autoridade. A autoridade que Deus concede é poder para servir, não algo a ser servido — e todo líder que confunde as duas coisas já cruzou uma linha.
As marcas de uma igreja que virou seita
Recebo relatos com frequência, e eles se repetem com uma constância que assusta. Um deles resume bem o padrão: a instituição não permite estudar nem visitar outras igrejas, e quem faz isso precisa "pedir perdão" antes de tomar a ceia. O irmão que me escreveu queria sair, a decisão já estava tomada, mas travava por causa da família — o sogro fazia parte do ministério.
Junte a isso as outras peças que sempre aparecem no mesmo quadro. Líderes que pedem exclusividade. Líderes que se anunciam como a única voz de Deus para aquela congregação — "eu sou o profeta desta igreja, vocês precisam me ouvir". Palavras de maldição contra quem vai embora. Proibição de ler autores de fora da denominação. E, na base de tudo, a ausência de uma liderança plural.
Faço questão de ser preciso aqui, porque venho do movimento pentecostal e não tenho nenhum problema com liderança episcopal. Ter um fundador, um líder que toma a direção, faz parte da minha tradição. O que não pode faltar é um presbitério ao lado dele — um conjunto de pastores e pastoras que possa dar um pitaco e, quando for o caso, discordar. Quando a liderança não suporta que discordem da sua própria palavra, foge. Uma liderança que ouve a membresia e decide em conjunto é sinal de saúde. Uma liderança em que o pastor, depois o filho do pastor, "têm a visão" e ninguém mais respira sem autorização tem cara de seita, e às vezes de coisa pior.
Preciso desfazer um mal-entendido antes que ele apareça. Eu não acho saudável um membro viver consumindo uma enxurrada dispersa de materiais enquanto ignora a própria igreja em que congrega — isso confunde, e costuma acontecer justamente quando a igreja não oferece nada de substância. Mas isso é questão de orientação, não de proibição. Um pastor aponta um caminho e diz "é assim que a nossa comunidade crê e prega"; ele nunca tranca a porta nem ameaça com maldição. Orientar é uma coisa. Obrigar é outra bem diferente, e a segunda é fariseísmo.
A mesma régua vale para o púlpito. Uma marca de igreja saudável é a Bíblia aberta, lida e explicada. Se no domingo à noite se prega só experiência e testemunho, e o texto bíblico nunca é destrinchado, tem problema. A pregação te mostra o caminho e te orienta; ela não te obriga. O pastor que prega um ano inteiro e depois obriga o João, no gabinete, a fazer o contrário do que ele mesmo ensinou, trocou a exposição das Escrituras pelo próprio comando.
Quando o abuso ganha nome
No BTCast 614, que gravei com a Cynthia Muniz e o Luiz Henrique, discutimos o livro de Michael Kruger justamente para dar nome a isso. Em Abuso Espiritual (Thomas Nelson Brasil), ele oferece uma definição que ajuda: o abuso acontece quando um líder — pastor, presbítero, dirigente de uma organização cristã — usa sua posição de autoridade espiritual para manipular, oprimir, assediar e intimidar quem está sob seus cuidados, tudo para manter o próprio poder, ainda que esteja convencido de estar perseguindo objetivos bíblicos e do Reino. Essa última parte é a mais afiada da definição: Kruger não retira do abusador a sinceridade. A guerra santa quase sempre tem bons argumentos na boca de quem a promove.
A mecânica ficou clara numa imagem que surgiu na conversa: é sempre CNPJ lidando com CPF. Quem detém a cadeira de influência tem mais força que quem não a detém, e o desequilíbrio de poder é o solo onde o abuso brota. Some a isso a cultura do título. Quando alguém termina o seminário e exige ser chamado de "reverendo", quando faz questão de ser tratado pelo cargo, levante a bandeira vermelha. Paulo chamava a igreja de irmãos e colaboradores, andava "com o presbítero Timóteo". Ambientes que valorizam demais a titulação — e o pentecostalismo em que me formei é um deles — não são necessariamente tóxicos, mas pegam fogo rápido quando a fagulha do abuso aparece. Não estou dizendo que a Assembleia de Deus seja uma igreja de liderança tóxica; estou dizendo que a obsessão por título cria um ambiente inflamável. Cheguei a escrever, no fim da minha formação, um texto chamado "A Catolicidade Romana Pentecostal", em que traçava paralelos entre nós e o catolicismo romano — inclusive essa ideia de infalibilidade pastoral, o homem de Deus que praticamente não erra.
Falamos também de como certos seminários complementaristas tratam a prevenção. A conversa girava em torno das "três barras" — a bebida do velho barreiro, a barra da saia e a barra de ouro, ou seja, álcool, sexo e dinheiro. Havia zelo pela piedade, herdado da espiritualidade puritana, mas faltava senso crítico sobre como o abuso se costura à própria teologia e à própria estrutura. É aqui que Kruger é útil para furar bolha: sendo ele conservador e complementarista, ninguém consegue acusá-lo de pauta ideológica quando afirma que a teologia patriarcal é terreno fértil para o abuso, e que há grupos que se dizem complementaristas mas operam, na prática, num paradigma patriarcal. Eu mesmo já ouvi, num grupo pequeno, alguém propor "resgatar o patriarcado", como se ele tivesse caído em desgraça. No afã de defender a liderança masculina, a pessoa não percebia que estava silenciando mulheres.
Kruger também descreve o retrato do abusador, e vale reter alguns traços. Ele é hipercrítico: vive à caça do defeito alheio, e as vítimas relatam a sensação de estarem sendo observadas, como se o líder buscasse sempre um erro para explorar. Ele é cruel no trato com funcionários e membros. E ele centraliza a confissão de pecados em si mesmo — e essa foi a sacada que mais me pegou. A igreja precisa de espaços onde o pecado pode ser confessado, mas o abusador transforma a confissão em moeda de barganha, guardada para o dia em que precisar ameaçar. O que deveria curar vira prova a ser usada no tribunal interno.
Há um teste caseiro que uso e que a conversa confirmou: repare em como a pessoa trata o garçom, o motorista de aplicativo, o atendente. Se você discutiu com o motorista por bobagem, só porque estava pagando e achava que ele tinha que fazer o que você queria, cuidado — você tem material para ser um líder abusivo. A pregação denuncia o mesmo. Quando o pregador passa a hora inteira exaltando a própria espiritualidade, e você sai de lá se sentindo um cristão de segunda linha diante da grandeza dele, levante de novo a bandeira.
Kruger tem o cuidado de fechar a outra porta: nem tudo é abuso. Personalidade, cultura e padrões diferentes explicam muita coisa que a gente rotula rápido demais. Alguém pode parecer antipático porque não atende a um padrão que você trouxe de casa, sem ser, de fato, um abusador. A honestidade exige as duas travas — reconhecer o abuso real e resistir à tentação de ver abuso em toda divergência.
A liderança que cura
O contrário do líder dominador não é um líder mais simpático. É outra teologia de liderança. Uma das falas do episódio trouxe o preparo para uma ordenação: um retiro pessoal cujos textos giravam quase todos em torno do pastoreio segundo Jesus — o pastor servo. Em algumas tradições, o formato da estola remete ao episódio em que Jesus pega a toalha e lava os pés dos discípulos. É um símbolo que devolve, toda semana, a lembrança de que autoridade ali é para servir.
No episódio, defendemos que a presença de mulheres na liderança corrige pontos cegos. Um dos argumentos foi o embelezamento da igreja pela pluralidade: quando um grupo inteiro é excluído da liderança, a comunidade perde leituras que só surgem no contato plural da humanidade reunida à mesa de Cristo. A mulher que enfrenta jornada tripla, que ainda é tratada como peso no ambiente de trabalho quando engravida — lembramos ali o caso recente de uma mulher afastada e tratada como fardo pela empresa —, traz para a mesa pastoral uma sensibilidade que evita decisões caras demais para um indivíduo ou uma família. Veio também o lado prático: uma voz feminina percebe padrões de comportamento e "brincadeirinhas" que os homens repetem sem nem notar, herança de um patriarcado arraigado na cultura.
Vale um recado direto a quem é complementarista e vai discordar de mim aqui. Mesmo que você creia na liderança masculina do lar e da igreja, enfatize a submissão mútua, que é claríssima nas Escrituras. A teologia paulina é do allélon, do "uns aos outros" repetido dezenas de vezes nas cartas. Se você põe o homem numa posição de liderança e esquece a mutualidade, abre espaço para o abuso achando que está construindo uma igreja bíblica. Timothy e Kathy Keller são um bom exemplo do outro caminho: uma igreja como a Redeemer, de liderança majoritariamente masculina, mas com mulheres consultadas e ouvidas de verdade. E o complementarismo, quando mal digerido, não silencia só mulheres — silencia também os solteiros e os mais jovens, porque amarra tudo ao matrimônio e esquece que o rapaz que conduz uma reunião de acionistas durante a semana tem o que contribuir no domingo.
Se você percebeu que está numa seita
Volto ao irmão que travava por causa do sogro, porque a família é o nó mais apertado nessas saídas. Minha resposta a ele foi a mesma que dou sempre. A partir do casamento, a sua principal família passa a ser o seu cônjuge. Quando casei com a Alexandra, deixei pai e mãe e constituí uma nova casa. Continuo com a responsabilidade de cuidar dos meus pais, de estar presente, de dar suporte financeiro quando for preciso — nada disso está em jogo. O que está em jogo é pautar a própria vida espiritual pela vontade do sogro, da sogra, de um patriarca que às vezes usa o dinheiro para manter todo mundo preso.
E aqui entra um texto que costuma ser mal lido. Jesus disse que veio trazer divisão, pai contra filho. Não é uma frase decorativa. As pessoas que o seguiram naquele tempo romperam com a religião oficial e, em muitos casos, com a própria família, porque estavam atrás de alguém que dizia ser o Messias. Quando a sua família está vivendo dentro de uma seita e chama aquilo de cristianismo, seguir a Jesus pode incluir, sim, encarar um barraco familiar. Continue amando: quando o pai e a mãe adoecerem, esteja no hospital, dê o suporte que puderem precisar. Mas cuide da vida espiritual da sua casa.
Trocar de igreja é sempre uma dor de cabeça, e não recomendo fazer isso por qualquer motivo. Só que, muitas vezes, compensa estar numa igreja mais perto da Bíblia do que numa igreja mais perto de casa. Essa conta vale a pena ser feita com calma.
A bacia como paradigma
No fim da conversa, chegamos ao antídoto: nosso modelo de liderança é Cristo, que veio ao mundo não para ser servido, mas para servir. É a teologia da bacia. A bacia com que Jesus lavou os pés dos discípulos nivela todo mundo — homem e mulher, líder e membro, CNPJ e CPF. Um monstro, como me ensinou meu filho diante do desenho, quase sempre é só um homem de máscara. O trabalho da igreja é o inverso: tirar a máscara, descer do pedestal em que a ovelha às vezes insiste em colocar o pastor, e devolver ao pastoreio o formato que ele nunca deveria ter perdido — o de quem se abaixa com a toalha na mão.