Provocações aos Músicos da igreja

IGREJA
SOB
MEDIDA

Deixa eu te perguntar uma coisa: quem é, na prática, a pessoa que mais “ensina teologia” na sua igreja todo domingo? Aposto que sua primeira resposta foi “o pastor”. Mas pensa de novo. Antes da pregação começar, alguém já escolheu as músicas, já subiu no palco, já falou no microfone entre uma canção e outra.

Você sabe de onde veio esse formato de culto que você já acha “normal”?

Para, um instante, e repara: banda, líder de louvor, um bloco de músicas antes da pregação, aquela progressão de convite, engajamento, exaltação, adoração. Você cresceu vendo isso e talvez ache que sempre foi assim. Não foi.

Até a década de 1980, quase nenhuma igreja brasileira tinha esse momento estruturado nem as pentecostais. As liturgias mais tradicionais intercalavam hinos, oração e leitura bíblica; as pentecostais eram mais soltas, no improviso. O modelo que você conhece hoje nasce com a renovação carismática, e aqui vai uma curiosidade que talvez te surpreenda: ela começou dentro do protestantismo brasileiro, não do catolicismo, como muita gente pensa.

E o esqueleto desse formato aquelas cinco fases, convite, engajamento, exaltação, adoração, intimidade – não nasceu numa igreja brasileira. Veio de John Wimber e do movimento Vineyard, nos Estados Unidos, e chegou por aqui via igrejas como Comunidade da Graça e Sara Nossa Terra. Quase tudo que você chama hoje de “louvor e adoração” tem essa raiz.

Se você quer um marco mais preciso: foi o Diante do Trono que trouxe o pacote inteiro banda, coral, backing vocal, ministração entre as músicas de forma consolidada, com o primeiro disco, gravado em janeiro de 1998. Só que o disco que provavelmente formou seu ouvido foi o segundo, com “Eu Te Agradeço”, gravado já em 1999.

Você já parou para pensar que virou “pregador” sem perceber?

Aqui é onde a conversa fica desconfortável de um jeito bom. Antigamente, o ministro de música de uma igreja histórica era formado em regência, composição, harmonia. Ele regia o coral, escolhia o hino, e ponto. Não falava. Com o modelo de louvor e adoração, você – se lidera ou já liderou algum momento assim ganhou um papel novo sem escolher conscientemente: falar diante da igreja, ministrar entre as músicas, algo bem parecido com uma homilia. E aí surge o problema real: é bem possível que você seja ótimo músico e nunca tenha estudado teologia o suficiente para sustentar o que fala no microfone. Se é esse o seu caso, não é falha pessoal é um ponto cego que o próprio modelo criou. Mas agora que você enxergou, dá para agir diferente.

Sua música é ruim ou é você que perdeu a régua?

Você provavelmente já reclamou, ou ouviu alguém reclamando, da “pobreza melódica e poética” da música cristã de hoje. Antes de concordar de cabeça, vale considerar outra hipótese: talvez o problema não seja exclusivo da música gospel, mas um reflexo de algo maior a queda geral do nível educacional no Brasil. Professores de teologia vêm relatando, há anos, que quem entra numa faculdade hoje chega com o nível de conhecimento bíblico e de interpretação de texto que um aluno de escola dominical tinha há trinta ou quarenta anos.

E música ruim sempre existiu só que antes o acesso era filtrado por gravadoras e igrejas. Hoje qualquer pessoa grava no quarto de casa e publica no Spotify. Produz-se mais do que nunca, e há mais coisa boa do que nunca também ela só se perde no meio de um volume absurdo de conteúdo. Da próxima vez que você for reclamar de “pobreza melódica” de forma geral, vale perguntar: você está comparando com o melhor do passado, ou com a média de tudo que existe hoje?

Você separa licença poética de erro teológico?

Aqui vai um teste rápido: quando você ouve uma letra estranha, você para para entender o contexto antes de julgar? Renato Marinoni contou um caso onde uma música conhecida usou a palavra “folia” no sentido de festa e alegria que já foi criticada por gente que leu “folia” como carnaval, libertinagem. Um erro de leitura, não da letra.

A regra prática que fica: licença poética só é licença poética quando é intencional, um recurso deliberado. Quando não é, é erro teológico com roupagem de figura de linguagem. Vale a pena aprender a diferença antes de sair criticando ou defendendo qualquer letra.

Você confunde intimidade com Deus com namoro com Deus?

Repare nas letras que você canta: quantas delas tratam sua relação com Deus quase como um relacionamento romântico? Isso tem uma origem identificável estudos já compararam o vocabulário de canções de amor seculares com o vocabulário das canções de adoração, e encontraram os mesmos verbos, a mesma estrutura, só que agora endereçados a Deus.

Não estou dizendo que chamar Deus de amigo é errado é bíblico. O problema é fazer só isso. A Bíblia sustenta as duas pontas ao mesmo tempo: Deus é transcendente e imanente, está longe e está perto. Lembra de João, o discípulo mais próximo de Jesus? Quando ele o vê ressuscitado e glorificado no Apocalipse, não corre para abraçá-lo cai como morto diante dele. Cabe intimidade, sim, mas cabe também prostração, reverência, distância santa. Se a sua adoração só canta um lado disso, ela está incompleta mesmo que soe bonita.

Você já confundiu efeito sonoro com presença de Deus?

Última provocação, e essa doeu em mim também: você já sentiu uma emoção forte ouvindo uma banda de louvor e chamou aquilo de “presença de Deus”? Agora pensa: você sentiria a mesma emoção ouvindo Coldplay, Evanescence, ou até Laura Pausini cantando em italiano? Se a resposta for sim, vale um cuidado. Boa parte da estética sonora do worship contemporâneo veio direto de bandas seculares uma influência real, batizada por alguns pesquisadores de “invasão britânica”. Isso não invalida sua experiência de adoração, mas te convida a discernir: o que você está sentindo é o efeito de uma boa produção musical, ou é de fato um encontro espiritual?

E agora, o que fazer com isso?

Se você lidera louvor, toca numa banda, ou simplesmente escolhe as músicas do próximo culto, a pergunta que fica não é retórica: você sabe explicar, teologicamente, por que está cantando o que está cantando?

A boa notícia é que estudar teologia hoje nunca esteve tão acessível. Não dá mais para usar a desculpa de que não tem tempo, não tem dinheiro, não tem onde aprender. Dá para começar pequeno mas dá para começar. E, pelo que essa conversa me deixou claro, começar já é a diferença entre repetir uma linguagem que você não entende e ministrar de verdade.

Texto adaptado a partir do BTCast, podcast do Rodrigo Bibo, com a participação de Renato Marinoni. Disponível em: https://youtu.be/9LFj_SDAOQg?si=oqk8xTRE5IrxqY_W